sábado, 1 de março de 2014

Previsão - Oscar 2014

    É amanhã! É amanhã! Os vencedores do Oscar 2014 serão anunciados, todos torcendo para não quererem matar os votantes na segunda-feira e que "Trapaça" zere na premiação. Vamos às apostas do blogueiro que vos escreve, em ordem de probabilidade, e com um (F) na frente, o meu preferido para aquele prêmio.

MELHOR FILME


1. "12 Anos de Escravidão"
2. "Gravidade"
3. "Trapaça"

4. "O Lobo de Wall Street" (F)
5. "Nebraska"
6. "Capitão Phillips"
7. "Clube de Compras Dallas"
8. "Ela"
9. "Philomena"



MELHOR DIRETOR



1. Alfonso Cuarón, por "Gravidade" (F)
2. Steve McQueen, por "12 Anos de Escravidão"
3. David O. Russell, por "Trapaça"
4. Martin Scorsese, por "O Lobo de Wall Street"
5. Alexander Payne, por "Nebraska"






MELHOR ATOR



1. Matthew McConaughey, por "Clube de Compras Dallas" (F)
2. Chiwetel Ejiofor, por "12 Anos de Escravidão"
3. Leonardo DiCaprio, por "O Lobo de Wall Street"
4. Bruce Dern, por "Nebraska"
5. Christian Bale, por "Trapaça"







MELHOR ATRIZ



1. Cate Blanchett, por "Blue Jasmine" (F)
2. Amy Adams, por "Trapaça"

3. Sandra Bullock, por "Gravidade"
4. Judi Dench, por "Philomena"
5. Meryl Streep, por "Álbum de Família"







MELHOR ATOR COADJUVANTE


1. Jared Leto, por "Clube de Compras Dallas" (F)
2. Michael Fassbender, por "12 Anos de Escravidão"

3. Barkhad Abdi, por "Capitão Phillips"
4. Bradley Cooper, por "Trapaça"
5. Jonah Hill, por "O Lobo de Wall Street"







MELHOR ATRIZ COADJUVANTE



1. Lupita Nyong'o, por "12 Anos de Escravidão" (F)

2. Jennifer Lawrence, por "Trapaça"
3. June Squibb, por "Nebraska"

4. Julia Roberts, por "Álbum de Família"
5. Sally Hawkins, por "Blue Jasmine"







MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA



1. "A Grande Beleza" (Itália)
2. "A Caça" (Dinamarca) (F)

3. "Alabama Monroe" (Bélgica)
4. "Omar" (Palestina)
5. "The Missing Picture" (Camboja)






MELHOR ROTEIRO ORIGINAL



1. Spike Jonze, por "Ela" (F)
2. Eric Warren Singer e David O. Russell, por "Trapaça"
3. Woody Allen, por "Blue Jasmine"
4. Craig Borten e Melisa Wallack, por "Clube de Compras Dallas"
5. Bob Nelson, por "Nebraska"







MELHOR ROTEIRO ADAPTADO



1. John Ridley, por "12 Anos de Escravidão"

2. Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke, por "Antes da Meia-Noite" (F)
3. Terence Winter, por "O Lobo de Wall Street"

4. Steve Coogan e Jeff Pope, por "Philomena"
5. Billy Ray, por "Capitão Phillips"






MELHOR ANIMAÇÃO



1. "Frozen: Uma Aventura Congelante"
2. "Vidas ao Vento"
3. "Os Croods"

4. "Ernest & Célestine" (F)
5. "Meu Malvado Favorito 2"








MELHOR FOTOGRAFIA



1. "Gravidade"
(F)
2. "Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum"
3. "Os Suspeitos"

4. "Nebraska"
5. "O Grande Mestre"






MELHOR MONTAGEM


1. "Gravidade" (F)
2. "Capitão Phillips"
3. "Trapaça"
4. "12 Anos de Escravidão"

5. "Clube de Compras Dallas"







MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL



1. Steven Price, por "Gravidade"
(F)
2. William Butler e Owen Pallett, por "Ela"
3. Alexandre Desplat, por "Philomena"

4. John Williams, por "A Menina que Roubava Livros"
5. Thomas Newman, por "Walt nos Bastidores de Mary Poppins"







MELHOR CANÇÃO ORIGINAL


1. "Let it Go", de "Frozen: Uma Aventura Congelante" – Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez (F)
2. "Ordinary Love", de "Mandela: Long Walk to Freedom" – Bono, Adam Clayton, The Edge, Larry Mullen Jr. e Brian Burton

3. "The Moon Song", de "Ela" – Karen O e Spike Jonze
4."Happy", de "Meu Malvado Favorito 2" – Pharrell Williams






MELHORES EFEITOS VISUAIS



1. "Gravidade"
(F)
2. "O Hobbit: A Desolação de Smaug"
3. "Star Trek: Além da Escuridão"

4. "Homem de Ferro 3"
5. "O Cavaleiro Solitário"







MELHOR EDIÇÃO DE SOM



1. "Gravidade"
(F)

2. "Capitão Phillips"
3. "All Is Lost"
4. "O Hobbit: A Desolação de Smaug"
5. "O Grande Heroi"






MELHOR MIXAGEM DE SOM



1. "Gravidade"
(F)

2. "Capitão Phillips"
3. "Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum"
4. "O Hobbit: A Desolação de Smaug"
5. "O Grande Heroi"








MELHOR FIGURINO



1. "O Grande Gatsby" (F)
2. "12 Anos de Escravidão"
3. "Trapaça”

4. "The Invisible Woman"
5. "O Grande Mestre"





MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO




1. "O Grande Gatsby" (F)
2. "Gravidade"
3. "12 Anos de Escravidão"

4. "Trapaça"
5. "Ela"







MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO




1. "Clube de Compras Dallas"
(F)
2. "Vovô Sem Vergonha"
3. "O Cavaleiro Solitário"

Resultados da Votação - Melhores de 2013 (Cinema)

    Aqui estão os resultados da votação quanto aos melhores de 2013, no cinema. Sinceramente gostei dos vencedores. Meus queridos leitores têm bom gosto. Para olhar quem foram os indicados de cada categoria, clique aqui.

MELHOR FILME





"Azul é a Cor Mais Quente": 37,5% dos votos.









MELHOR DIRETOR





Alfonso Cuarón, por "Gravidade": 42,9% dos votos.









MELHOR ATOR





Daniel Day-Lewis, por "Lincoln": 37,5% dos votos.









MELHOR ATRIZ





Adèle Exarchopoulos, por "Azul é a Cor Mais Quente": 42,9% dos votos.








MELHOR ATOR COADJUVANTE





Leonardo DiCaprio, por "Django Livre": 50% dos votos.









MELHOR ATRIZ COADJUVANTE






Léa Seydoux, por "Azul é a Cor Mais Quente": 75% dos votos.








MELHOR ATUAÇÃO INFANTIL/JUVENIL




Adèle Exarchopoulos, por "Azul é a Cor Mais Quente": 57,1% dos votos.









MELHOR ROTEIRO ORIGINAL





Quentin Tarantino, por "Django Livre": 62,5% dos votos.









MELHOR ROTEIRO ADAPTADO





Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, por "Azul é a Cor Mais Quente": 85,7% dos votos.








MELHOR ANIMAÇÃO





"Detona Ralph": 57,1% dos votos.









MELHOR MONTAGEM




"Gravidade": 50% dos votos.










MELHOR TRILHA SONORA





"Gravidade": 85,7% dos votos.









MELHOR FOTOGRAFIA





"Anna Karenina": 42,9% dos votos.









MELHOR DIREÇÃO DE ARTE





"O Grande Gatsby": 37,5% dos votos.









MELHORES EFEITOS ESPECIAIS





"Gravidade": 85,7% dos votos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Clube de Compras Dallas

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    Alguns filmes se destacam muito mais pelo o que tem a dizer do que pela sua própria realização. Problemas estruturais que se tornam quase irrelevantes pela importância da discussão que colocam. "Clube de Compras Dallas" é um exemplo destes filmes. Apesar de ter uma construção razoavelmente competente, o longa chama a atenção muito mais pelos temas trazidos de sua inspiração por fatos reais - e pelas suas duas atuações principais, claro.

    O longa conta a história de Ron Woodroof (Matthew McCounaghey, "Magic Mike"), um homem do sul dos Estados Unidos, homofóbico, misógino, preconceituoso e ignorante que é diagnosticado com HIV. Na época da história, os anos 80, o vírus da AIDS era absurdamente atrelado à homossexualidade e tinha pouquíssimas formas de tratamento. Então, quando os médicos lhe dão 30 dias de vida, Ron tenta engolir todos os seus preconceitos e busca conseguir métodos alternativos de tratamento. Surge, por fim, o Clube de Compras Dallas - uma espécie de centro clandestino de distribuição de remédios ainda não aprovados nos Estados Unidos.

    Ron, claro, não muda da água para o vinho. Sua personalidade preconceituosa repugnante - ainda bem - não simplesmente desaparece durante o longa. Não que alguém se tornar esclarecido seja ruim - claro que não! -, mas isso seria um tremendo de um clichê e quebraria todo o equilíbrio do filme. De forma alguma ele vira uma alma caridosa em prol dos necessitados, pois a distribuição dos remédios só é feita para os que compram as cotas na "sociedade". Ah, e como ele conseguiu atrair público? Se tornando sócio de uma transexual, Rayon (Jared Leto, "Réquiem Para um Sonho").

    Apesar de manter parte de seus preconceitos, a redenção de Ron se dá pela sua crescente amizade e afeto que possui por Rayon. Alguns momentos, como a cena do supermercado, mesmo que resvalem em clichês, surgem com naturalidade durante o longa. É interessante perceber como os antigos amigos de Ron, tão preconceituosos quanto este, o abandonam e acabam sendo aqueles sobre quem ele antes depositava ódio - os gays - seus apoiadores.

    A relação entre Ron e Rayon não teria um quarto da força que tem não fossem seus intérpretes. Matthew McCounaghey se firma em sua sequência de ótimas atuações na década de 2010 - "Killer Joe", "Amor Bandido", "Magic Mike"... -. Seu já típico sotaque texano, se une à entrega física e à eficiência em acompanhar as mudanças de seu personagem durante o longa, numa interpretação poderosa. Já Jared Leto ressurge para o cinema em grande forma, com uma interpretação numa vibe Ryan Gosling, dizendo muito a partir de olhares e expressões. Os dois carregam o filme.

     A montagem da obra é irregular, gerando tanto momentos excelentes quanto criando situações aceleradas demais, que talvez demandassem mais calma na abordagem. A passagem do tempo é o maior exemplo disso - uma vez que os 30 dias de Ron viraram anos -, por vezes vira um amontoado de cenas em velocidade de cruzeiro, já em outras surge com grande naturalidade.

    Outra discussão colocada na roda pelo longa é sobre a indústria farmacêutica, que faz uso do desespero de pacientes em estado terminal para ter mais lucros. Entretanto esta vilanização pura e simples da medicina acaba enfraquecendo o filme. Muito disso porque aquela que seria o contraponto deste ambiente de corrupção e jogo de interesses, a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner, "Juno"), é uma das personagens mais apáticas e sem graça do ano. É quase insuportável aguentar a cara de mosca morta de Garner na tela.

    A temática gay, por sinal, não é estranha ao cineasta Jean-Marc Vallée. No excelente longa "C.R.A.Z.Y.", o diretor construiu com muita habilidade a descoberta e aceitação da homossexualidade no ambiente familiar. Aqui, mesmo que visto por um outro ângulo, o tema também não deixa de ser trabalho de forma engenhosa, sem resvalar em clichês. A sensibilidade de Vallée ao tratar do tema é sem dúvida digna de nota.

    Destacando-se mais pelas suas ideias e críticas do que como um filme propriamente dito, "Clube de Compras Dallas" se solidifica a partir de suas duas poderosas atuações masculinas. Mesmo que não seja uma obra perfeita, o saldo é muito positivo e Vallée certamente é um cineasta que merece atenção.

Nota 7/10

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Nebraska


    Alexander Payne é um diretor e roteirista que, em sua curta, porém formidável filmografia enfoca em homens comuns. Estes exemplares que partem em jornadas simples, mas que no fim revelam muito sobre eles. "Sideways", "As Confissões de Schmidt" e "Os Descendentes" são ótimos estudos de personagem, acompanhados de excelentes análises sobre a sociedade - em seus diferentes focos -. Em seu mais recente longa, "Nebraska", pela primeira vez Payne dirige um roteiro que não é de sua autoria, mas que não foge desta estrutura.

    Escrito por Bob Nelson, o roteiro conta a história de Woody (Bruce Dern, "Django Livre") e David (Will Forte, "Vizinhos Imediatos de 3º Grau"), pai e filho, que embarcam numa jornada após Woody receber uma carta dizendo que ganhou um milhão de dólares. Mesmo sabendo que se trata apenas de uma enganação e com os berros de reprovação de sua mãe, Kate (June Squibb, "Perfume de Mulher"), o filho se propõe a acompanhar o pai até a cidade onde supostamente deve retirar o prêmio. No meio do caminho, porém, David resolve reunir o pai e sua família que há tempos não se veem.

    Utilizando maravilhosamente bem a fotografia em P&B, que cumpre seu papel em criar um ambiente precisamente melancólico e desesperançoso, o longa embarca nesse road movie entre pai e filho. O reencontro de Woody com seus amigos e parentes não poderia ser pior e mais representativo em termos de prisma social. Unicamente interessados no dinheiro do suposto novo milionário, surgem débitos do passado aos montes. E os supostos momentos de união familiares são absolutamente desinteressados, com uma família que não consegue criar uma conversa minimamente decente. Homens que ficam assistindo ao jogo na TV e só trocam algumas parcas palavras para falar sobre carros.

    A construção de Nelson e Payne é eficiente na construção de sua metáfora social e quase sempre consegue desviar com habilidade da caricatura e do lugar-comum. Além de sua visão ampla sobre a família, o longa entra numa discussão próxima à vista em "As Confissões de Schmidt" sobre os efeitos da idade no ser humano. É, em última análise, um apanhado imagético sobre a vida. Tanto do ponto de vista do filho, esforçado em criar uma situação de felicidade e perseguir o sonho de seu pai que a qualquer momento pode partir; quanto do pai, que como diz a mãe "não vê o que ocorre ao seu redor metade do tempo".

    As atuações são certamente outro destaque. Bruce Dern, ganhador do prêmio de melhor ator em Cannes, está magistral e poderoso. June Squibb também está competentíssima e apaixonante no papel da "super sincera" Kate. Will Forte surpreende em uma interpretação crível e segura, assim como os demais coadjuvantes. Certamente um dos melhores elencos do ano.

     Mesclando humor e drama, como típico nas obras de Payne, o longa consegue construir uma transição eficaz entre ambos, sem se tornar irregular. Mas é certamente na sua vertente dramática que o filme guarda sua força, ao contar uma história emocionante, tocante e real. Um retrato social sincero sobre a vida e a forma como passamos por ela, com suas alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. Roteiro brilhante, direção competente, atuações magníficas e técnica eficaz alicerçam uma película memorável e simples, como nossa vã existência.

Nota: 8/10
    

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ela


    A carreira do diretor Spike Jonze inicialmente era atrelada a filmes roteirizados pelo gênio Charlie Kaufman. Ao lado dele entregou grandes obras como "Adaptação" e "Quero Ser John Malkovich", as quais guardavam boa parte da sua força no talento de Kaufman em seus roteiros inteligentes e criativos. Em 2009, então, Jonze se lançou à "carreira solo" com "Onde Vivem os Monstros", mas apenas agora com "Ela" podemos dizer que realizou um grande acerto. Aclamado pela crítica e público, o longa é uma obra densa, bela e original.

    Se passando em um futuro não muito distante, em que o ser humano adquiriu uma proximidade e contato ainda mais forte com as máquinas, o filme conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix, "O Mestre") e sua relação romântica com o sistema operacional que coordena sua vida, Samantha (voz de Scarlett Johansson, "Encontros e Desencontros"). Algo próximo de uma Siri superdesenvolvida, com sentimentos e personalidade própria e construída para contemplar todas as necessidades (todas mesmo!) de Theodore.

    Apesar da trama aparentemente fora de realidade, a construção de Jonze cria um ambiente totalmente crível. É, na verdade, uma análise sobre o sentimento humano; não uma banal comédia romântica. Jonze não se prende a limites e abarca toda uma discussão sobre a natureza do que sentimos. Contrastando com o relacionamento de Theodore e Samantha; temos diversos estágios das relações humanas. O primeiro encontro. O início. O meio. O fim. O divórcio. A dor. A desilusão. O recomeço.

     Os personagens são defendidos com absoluta competência pelo forte elenco. Joaquin Phoenix demonstra ser um dos melhores atores da atual geração, com uma interpretação sensível e real. Scarlett Johansson estranhamente toma o filme para si a partir de uma composição de voz extraordinária. A atriz consegue trazer toda a complexidade daquela criatura tecnológica unicamente pela voz. Não a vemos, mas a sentimos de forma completa. Amy Adams como Amy, amiga de Theodore, também merece destaque. Além de Olivia Wilde e Rooney Mara, em pontas interessantíssimas.

    Contando também com uma belíssima trilha sonora e uma competente direção de arte, "Ela" possui o melhor dos roteiros originais indicados ao Oscar deste ano. A transformação de um argumento interessante em realização excelente é feita com grande habilidade por Jonze, também roteirista. Mesmo que também apresente certas críticas à relação homem-máquina, seu foco não é este - e ele nem perde tempo com essa discussão já tão exaustivamente explorada -. Ao observar isso por um novo ângulo, Jonze mantém o fôlego do longa e o interesse do espectador, mesmo que lá pelas tantas de seu último ato o filme perca força e caia numa resolução convencional.

    Ainda que não tenha a força de suas parcerias com Charlie Kaufman, "Ela" serve como afirmação autoral de Jonze em sua caminhada solo. Uma interessante obra que indica mais um diretor e roteirista que merece ser observado. "Ela" é um filme belo, poderoso e que apresenta pontos de vista e discussões interessantes. Acompanhado de boas interpretações, é certamente um dos filmes da temporada de premiações que não pode deixar de ser visto.

Nota 8/10
    

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Philomena



    "Philomena" é um filme simples e que se baseia numa história real  para construir uma obra que, em sua curta duração, consegue discutir temas certamente polêmicos sem cair no sentimentalismo barato ou tentar chocar o espectador a qualquer custo. Stephen Frears ("Ligações Perigosas") cria uma trama baseada em seus atores competentíssimos e num roteiro muito bem costurado, pegando para si a função de apenas acompanhar o desenrolar de tudo, com um trabalho de câmera convencional, porém eficiente.

    Philomena (Judi Dench, "007 - Operação Skyfall"), na adolescência, engravidou de um menino, foi condenada a uma vida servil num convento e separada de seu filho, o qual foi vendido para um casal de americanos contra sua vontade. Décadas depois, ela conta com a ajuda de um jornalista desempregado (Steve Coogan, "Trovão Tropical") na busca pela criança desaparecida.

    Seria um filme comum, com gostinho de dejá vù, não fossem as excelentes subtramas costuradas pelo roteiro de Jeff Pope e do próprio Coogan. Além de, claro, as maravilhosas interpretações de Coogan e, principalmente, de Judi Dench. Ambos convivem em profunda oposição: pelos modos de agir, pensar e encarar a vida. Entretanto a química entre ambos é excelente, gerando uma relação de amizade e apreço por parte do espectador que certamente é algo difícil de se criar.

    Suas personalidades são construídas de forma indireta e bem realizada, a partir de diversas situações comuns, porém de fácil percepção até para o espectador mais desatento. Evita, assim, resvalar em narrações desnecessárias ou diálogos que explicitem tudo. Cenas como a do café da manhã no hotel são básicas, porém de importante força narrativa e ajudam a aprofundar ainda mais a essência da dupla principal.

    Na verdade, o foco do filme nunca fica preso à busca pelo filho perdido - essa situação até se resolve rapidamente -, o longa busca, sim, trazer à tona vários outros temas importantes e, o mais importante, criar uma personagem densa e poderosa (Philomena). Uma passagem muito bem construída por situações como homofobia, anticlericalismo e crimes da Igreja Católica.

    Sem cair no melodrama, "Philomena" é um drama poderoso. Alicerceado em seus personagens contrastantes e densos, além de suas discussões políticas e religiosas que fluem muito bem durante o longa. É um filme delicioso, simples e que certamente cairá nas graças do grande público. E merece isso.

Nota 8/10

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Frozen



    A adaptação do conto "A Rainha da Neve" é um sonho antigo da Disney. A origem da tentativa de trazer a história de Hans Christian Andersen ("A Pequena Sereia") às telas remonta a 1943, com investidas ocorrendo também durante as décadas de 90 e 2000. Só em 2008, quando Chris Buck - futuro diretor do longa e que já havia trabalhado com o estúdio em "Tarzan" - trouxe à mesa a sua adaptação para a trama que o projeto foi levado à frente, com o apoio de John Lasseter - diretor de "Toy Story" e homem-forte da Pixar -.

    A história é centrada em duas irmãs: Elsa e Anna. A primeira, mais velha, possui poderes especiais (algo meio Homem de Gelo, dos X-Men, na versão feminina) e está prestes a se tornar a nova rainha. Anna, a mais nova, é a personificação das princesas Disney. Devido a um acidente na infância envolvendo os poderes de Elsa, ambas se mantiveram afastadas até o fatídico dia da coroação.

    Quando, então, um novo acidente acontece e todos descobrem os poderes de Elsa, a nova rainha resolve se isolar do mundo e fugir, entretanto acaba por deixar o reino todo congelado. Cabe a Anna ir em busca de sua irmã e por um fim ao rigoroso inverno. O deslocamento de Elsa das vezes de protagonista para uma posição de coadjuvante problemática é uma das principais forças do filme.

    Não que Elsa tenha per se qualquer maldade ou algo do tipo, mas seu controle sobre o gelo alcança o posto de vilão do longa (mesmo que lá pelas tantas um plot twist dos mais sem graças e manjados tente dizer o contrário). Além disso, a rainha, em meio a seu conflito interno, é a personagem mais interessante do filme. A película é toda estruturada sobre ela, apesar de Anna ficar um tempo muito maior na tela.

    Falando em Anna, ela é a que ocupa o posto de princesa Disney do longa. Possuindo aquela típica personalidade graciosa e inocente dos filmes do estúdio. É a partir dela que "Frozen" apresenta um de seus ares mais modernosos, com uma crítica interessantíssima ao amor à primeira vista presente em quase todos os "felizes para sempre" da Disney. Autoironia sempre será uma forma bacana de se abordar um clichê.

    E, se é para falar de clichê, falemos dos personagens fofinhos aptos à distribuir piadinhas durante o filme. Aqui o posto principal nestes termos pertence a Olaf, um boneco de neve que sonha em conhecer o verão. Talvez aparecer só lá pela metade do longa tenha atrapalhado o pobre coitado, mas a sua participação fica bem aquém de clássicos do estúdio como Timão e Pumba. Bem esquecível. Até o alce Sven é mais engraçadinho - e ele não fala -.

    Outra marca registrada da Disney e que o estúdio vem recuperando em suas obras é a presença de números musicais. E "Frozen" é cheio deles. Se, por um lado, "Let It Go" é o momento mais lindo e tocante do filme - muito disso por causa da maravilhosa performance de Idina Menzel -; por outro, muitas das músicas são simplesmente sem graça. Uma redução na quantidade teria feito um grande bem ao ritmo do filme, o qual por vezes é quebrado pela cantoria incessante.

    A sensação que fica ao fim de "Frozen" é que os próprios clichês do gênero impedem que o longa alce voos maiores. Mesmo que seus produtores tenham feito um considerável esforço em desviar-se, por exemplo ao colocar o foco na trama entre as irmãs em detrimento do amor "príncipe-princesa" - o clímax é providencial ao evidenciar isto -; a estrutura típica dos longas do estúdio ainda o esquematizou demais. Não é a sua melhor animação desde "O Rei Leão", como muito foi chamada ("Enrolados", por exemplo, é um filme melhor); mas não deixa de ser um bom alento.

Nota: 7/10 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Trapaça


    "Trapaça" é a sequência do diretor David O. Russell na sua caminhada em busca do tão sonhado Oscar. E para isso, claro, investe em filmes redondinhos, sob medida e que tomam a menor quantidade possível de riscos. É interessante notar a evolução (na verdade, estamos mais para involução mesmo) dos longas do diretor durante esta década de 2010. Se "O Vencedor" era um drama poderoso, também centrado principalmente em suas poderosas atuações - o que é marca registrada de O. Russell, que, de fato, é um ótimo diretor de atores -; "O Lado Bom da Vida" e "Trapaça" são apenas filmes lights e sem graça, que tentam dar ênfase nos seus personagens e se perdem em meio a roteiros verborrágicos.

    Desta vez, o diretor traz à tela uma versão aguada e pretensamente engraçadinha de "Os Bons Companheiros", de Martin Scorsese. A inspiração, proximidade, homenagem (chamem do que quiserem) ao diretor de "O Lobo de Wall Street" fica ainda mais evidente pelo uso intensivo da câmera inquieta e movimentada. Mas O. Russell não é Scorsese e lá pelas tantas de suas 2h10 de duração, a sensação de que aquilo era um trabalho apenas genérico fica latente.

    A trama cheia de reviravoltas (a maioria bem ineficaz) envolve dois golpistas, Irving Rosenfeld (Christian Bale, de "O Vencedor") e Sidney Prosser (Amy Adams, de "O Mestre"), que são forçados a trabalhar em conjunto com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper, de "Se Beber, Não Case!") e se infiltrar no mundo da máfia e da política. Eles fazem isso por intermédio do político Carmine Polito (Jeremy Renner, de "Guerra ao Terror"), que nada sabe sobre a operação. Entretanto a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence, de "Inverno da Alma") aparece e muda as regras do jogo.

    O roteiro de "Trapaça" é um de seus principais problemas. Apostando em diálogos pretensamente espertos, o filme se torna apenas um falatório sem fim e dos mais cansativos. Não suficiente isso, ainda possui uma narração em off que em metade do tempo só serve para dizer aquilo que O. Russell não foi capaz de deixar claro para o espectador por meio de imagens: já que não consegue mostrar, discursa sobre e deixa a história mastigadinha para todo mundo. Um artifício pobre e mais uma vez emulado de filmes de Scorsese, porém nestes, a narração é um algo a mais à trama, não uma muleta.

    Mas "Trapaça" não é só desgraça também. Sua parte técnica é belíssima, principalmente em sua direção de arte e figurinos, competentes na transição para uma década de 70 intencionalmente exagerada e colorida. A trilha sonora também ajuda muito nesta volta ao passado através de suas interessantes escolhas de músicas. Além disso, a montagem do longa é um de seus pontos fortes, ao tornar a trama mais ágil e desafogar um pouco da verborragia e "blá-blá-blá" criados por O. Russell.

    Ancoradas neste tom exagerado escolhido pelo diretor, as atuações (tão celebradas) estão irregulares. Bale faz uma versão caricata de Robert De Niro (que faz uma ponta no longa) nos tempos áureos de suas parcerias com Scorsese (ele de novo!) e está tão exagerado quanto seu barrigão com 20 quilos a mais e sua peruca mal feita. Cooper não é bom ator e cumpre exatamente as expectativas que podemos criar sobre ele: nenhuma. Renner praticamente passa pela tela sem ser lembrado, mas não compromete, pois pelo menos escolheu uma composição mais sutil.

    Já as atuações femininas são as verdadeiras forças motoras da película. Amy Adams está magistral e é uma das melhores atrizes da atualidade. Sua personagem é a mais completa e profunda do longa e, portanto, a mais interessante. Não fosse Cate Blanchett, seria minha favorita para o Oscar de Melhor Atriz. Já Jennifer Lawrence faz um trabalho muito melhor que em "O Lado Bom da Vida", numa composição mais densa e competente. A cena entre ambas em um banheiro é a melhor do filme.

    Todavia, claro, O. Russell sabota até o que é bom em seu filme e em seus últimos momentos destrói qualquer pretensão de Lawrence em se manter longe da caricatura ao construir uma cena absolutamente desnecessária, exagerada e caricatural em que a personagem da atriz aparece cantando "Live And Let Die". O diretor quebra a quarta parede e a sensação que fica é de pura vergonha alheia.

    A torcida que fica é para que os deuses do cinema não permitam que O. Russell leve o Oscar, que com certeza tem filmes mais merecedores em recebê-lo. Não que qualquer premiação mude a qualidade de algum trabalho, mas dói ver qualquer forma de reconhecimento indo para algo que não o merece. Essa coisa convencional e wannabe cool que o diretor se tornou é apenas chata e sem graça.

Nota: 6/10

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Os Croods


    Com o gênero infantil americano numa evidente entressafra - ao que eu dei muita ênfase na crítica para "Meu Malvado Favorito 2" -, é até de se comemorar o lançamento de algo absolutamente mediano como "Os Croods". Com evidentes inovações visuais e problemas estruturais, o longa não chega a ser dos melhores da DreamWorks, mas também não é uma catástrofe.

    O longa se enquadra perfeitamente nos padrões de seu estúdio: personagens forçados a sair de seu cotidiano e que são obrigados a se adaptar a uma nova realidade. Aqui, os Croods, uma família acostumada a uma rígida rotina de sobrevivência durante a era pré-histórica, são forçados a explorar o mundo quando o seu antigo lar acaba por ser destruído.

    Grug é o pai superprotetor; Ugga, a mãe simpática; Thunk, o irmão idiota; Sandy, a bebê louca; e ainda temos a vovó (para render aquelas piadas supimpas de sogra). Essa é a família de Eep, uma jovem curiosa por descobrir o mundo, mas presa aos hábitos familiares. Tudo muda quando ela conhece Guy e as transformações naturais do planeta forçam os Croods a buscar um novo lar.

    O humor do filme se baseia no estranhamento da antiquada família quanto a itens "modernos" como sapatos e fogo, no que o longa alcança razoável sucesso. Além disso, a inexistência de propriamente um vilão - digamos que a vilã aqui seja a própria natureza -, não deixa de ser uma saída do eixo comum das animações. Outrossim, importante citar a beleza visual da película, com passagens deslumbrantes, usando de uma liberdade criativa e poética na criação de vegetações e animais do período pré-histórico.

    Se possui estes acertos, "Os Croods" peca pelo roteiro formulaico nos conflitos familiares e pelas lições de moral nada sutis e típicas da DreamWorks. Também é notável o problema que o filme possui em sua trilha sonora exageradamente pesada e na unidimensionalidade de membros da família - gente, aquela avó?! -. Um trabalho mais profundo no roteiro com certeza teria trazido melhores frutos à animação.

    Numa tentativa de equilíbrio entre visual fantástico, roteiro esquemático, humor eficiente e história batida; "Os Croods" é um programa razoavelmente agradável, praticamente inofensivo e útil para uma noite entediada. Como cinema, é apenas medíocre e somente digno de nota pela sua técnica.

Nota 5/10

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ernest & Célestine


    Em meio a esse período turbulento de entressafra nas animações americanas, é um grande alívio encontrar uma animação francesa tão simples, mas ao mesmo tempo apaixonante. É um típico buddy movie, mas feito com tanta qualidade e atenção aos detalhes que não tem como não achá-lo uma obra maravilhosa.

    O enredo é sobre a estranha amizade entre uma jovem ratinha, Célestine, e um urso, Ernest. Célestine vive no subsolo, junto dos outros ratos, em uma espécie de orfanato e sonha em ser desenhista. Já Ernest é um urso pobre, que vive isolado numa floresta e busca seu sustento como músico de rua - o que não é bem visto na tradicional sociedade dos ursos -.

    Os caminhos de ambos se cruzam quando Célestine fica presa em uma lata de lixo durante um de seus passeios noturnos pela cidade dos ursos e é Ernest quem a encontra. Nasce ali uma amizade impossível: para os ursos, os ratos eram criaturinhas nojentas que deveriam habitar o subsolo e manter-se longe; para os ratos, os ursos eram bichos perigosos e truculentos que não hesitariam em comê-los vivos.

   Pode-se ver que a história é simples e batida, mas sua construção é tão bela e bem feita que nem dá para ligar para isso. A amizade entre ambos é construída aos poucos, sem sobressaltos. Além disso, a animação é tão maravilhosa - toda feita em aquarelas - que não tem como não se apaixonar. Um desenho colorido e em alguns momentos até lírico - como nos momentos em que ambos tem pesadelos -.

    Ademais, por trás de tudo, a trama também guarda uma interessante crítica social, pois mesmo quando Ernest e Célestine começam a morar juntos, a ratinha também vive na "parte inferior", ou seja, no porão. Com o passar do tempo, e o crescimento do afeto entre os dois, essa barreira de superioridade e preconceito se quebra. Numa lição de moral bacana para crianças e nada forçada pelo roteiro - na verdade, ela nem é tão óbvia assim -.

    Por fim, "Ernest e Célestine" é uma animação bem simples e de baixas pretensões, mas surpreendentemente bela e tocante. Sua simplicidade fica escancarada em seu final, que cai no lugar-comum e se torna até bobo. Mas é um conto tão bonitinho e com cenas tão maravilhosas, a partir de suas aquarelas deslumbrantes, que certamente tem lugar entre as melhores animações do ano.

Nota 8/10

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Grande Beleza


    "A Grande Beleza" é um filme contemplativo. Não muito fácil de se assistir também, é verdade. Pela própria intenção de Paolo Sorrentino com sua obra, não poderia ser um filme de estrutura narrativa comum, posto que não possui uma linha única em sua história. Se trata de um filme de situações, em que o todo não forma uma sequência narrativa totalmente amarrada em si, mas sim um mosaico de fatos, reflexões e simbolismos.

    Sorrentino busca, através dos olhos de um já sexagenário escritor, construir um retrato da sociedade italiana contemporânea. Reservados os devidos momentos políticos e sociais distintos, se aproxima muito do cinema de Federico Fellini - o que sempre é lembrado e relembrado nos textos por aí sobre o filme -. Logo em seus primeiros momentos o longa já deixa claro que os tempos são outros, quando durante a festa de aniversário de 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo, de "As Consequências do Amor"), o protagonista, vemos uma alta sociedade envelhecida e deslocada.

    Construída com eficácia pelo roteiro do próprio Sorrentino acompanhado de Umberto Contarello, essa viagem analítica em meio às disfunções e futilidades que permeiam a sociedade italiana se mostra extremamente competente em cumprir seu objetivo de contemplação, adoração e julgamento - tudo ao mesmo tempo -. É um misto de passeio turístico com crítica social e viagem pela arte romana, espalhado pelas 2h20 de duração do longa (que poderia, sim, ser menor sem perder força - Sorrentino pecou pelo excesso -).

    Além disso, o filme se destaca também por sua parte técnica. A direção do italiano é competente e - apoiada na belíssima fotografia -, traz um excelente trabalho de câmera, que amplia os horizontes do filme e o engradece ainda mais. Os créditos finais, acompanhados de um tour turístico pela capital italiana demonstram bem as belas imagens que "A Grande Beleza" (hum...) nos proporciona.

    Após toda a jornada e passadas quase duas horas de sua duração, o longa chega a outro de seus problemas: os sucessivos "finais-que-não-são-finais-só-parecem-ser-finais". São diversas cenas que perfeitamente serviriam como fechamento de tudo aquilo, mas Sorrentino parecia querer mais. Claro, há muita a coisa a se dizer num filme deste tipo, que não se prende a uma estrutura simples e se horizontaliza. Entretanto o espectador, já até um pouco cansado e atordoado - não é um filme fácil, eu disse -, não está mais tão arrebatado pela jornada.

    Em uma visão geral, "A Grande Beleza" é um grande filme, extremamente bem executado e que cumpre suas enormes pretensões com particular maestria e elegância. Os deslizes, causados pelo excesso, seja na duração, seja pela demora para o seu desfecho; se mostram bem menores quando comparados à realização de Paolo Sorrentino.

Nota 8/10


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - O Grande Gatsby


    Não haveria como esperar outra coisa da adaptação cinematográfica de Baz Luhrmann para "O Grande Gatsby" que não exagero imagético. Um diretor que possui "Moulin Rouge - Amor em Vermelho" no currículo não poderia fugir disso, já que está na sua concepção de cinema. A questão seria a dosagem de histrionismo, principalmente pelo fato de o texto original de F. Scott Fitzgerald guardar uma pesada crítica social. E, de fato, Luhrmann quase engole a história toda.

    O enredo é conduzido sob o ponto de vista de Nick Carraway (Tobey Maguire, de "Homem-Aranha"), que é fascinado por seu misterioso vizinho e novo amigo, Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio, "A Origem"). Gatsby é famoso pelas festas que dá em sua enorme mansão, porém sua única intenção com isso é chamar a atenção de seu amor do passado, Daisy Buchanan (Carey Mulligan, "Shame"). Ela agora é casada com o ricaço e arrogante Tom Buchanan (Joel Edgerton, "Guerreiro") e cabe a Nick aproximar Gatsby dela novamente.

    Todo o primeiro ato é purpurina pura. Mas não é como se Luhrmann já não nos avisasse disso já nos créditos iniciais, né... Sequências musicais coloridas e exageradas, embaladas pela trilha sonora repleta de músicas atuais (a qual não funciona tão organicamente como ocorreu em "Moulin Rouge"). Elas engolem a história de todo o primeiro ato. Acompanhamos tudo sem qualquer imersão, somos meros observadores dos fogos de artifício de Luhrmann. É uma primeira parte bem cansativa, para dizer o mínimo. Principalmente para os olhos. Decididamente o australiano perdeu a mão ali.

    A trama e a crítica social séria de "Gatsby" não aceitam tanto o histrionismo dele da forma como "Moulin Rouge" obviamente aceitava. Pelo menos todo o exagero mostrou o poder da direção de arte, da fotografia e figurino do filme - belíssimos -. Entretanto, as atuações acabam ficando escondidas perante tanto brilho: Mulligan está insossa, Maguire com a cara de sempre e Isla Fisher, a amante de Tom, exagerada como seu diretor. DiCaprio é, de fato, o único a trazer alguma profundidade - ainda que também esbarre em maneirismos -.

    Já na segunda parte, tudo melhora. Luhrmann põe o pé no freio e deixa a força do livro falar por si. O foco muda da técnica para o texto e seus personagens e, enfim, a história começa a andar. Saímos da montagem atropelada do começo, para um ritmo bem mais respirável para o espectador. Apesar disso, já era um pouco tarde. O interesse já não era o mesmo, a paciência também não. Luhrmann, na verdade, fez o serviço de estragar algo que poderia ter sido ótimo e feito jus ao clássico literário que "O Grande Gatsby" é.

    O que fica, realmente, é a parte técnica maravilhosa - o que já era esperado - e um segundo ato que funciona e recupera o fôlego do filme. Luhrmann agora pelo menos tem um sucesso comercial passado no currículo para conseguir financiar sua próxima ousadia e, quem sabe, chegar a alguma obra de bom nível. Em "O Grande Gatsby", ele com certeza não o fez.

Nota 6/10

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Meu Malvado Favorito 2



    As animações americanas vêm passando por um período complicado. Obras originais medíocres ("Reino Escondido", "Valente", "Turbo"...) e sequências sem qualquer inspiração ("Carros 2", "Gato de Botas"...). Aí, abaixo de tudo isso, nas profundezas da escória cinematográfica, aparecem "Meu Malvado Favorito" e este seu sucessor. Porque, claro, o que está ruim sempre pode piorar (e em 2014, com "Minions", a tragédia deve ser ainda maior).

    Se o primeiro longa falhava totalmente na tentativa de inverter os papéis e manter um vilão-protagonista (tal qual seu contemporâneo "Megamente"), aqui os aprendizes de roteiristas Ken Daurio e Cinco Paul falham miseravelmente em construir qualquer arremedo decente de história. Acho que não há prova maior do fracasso narrativo desta franquia do que a inexistência de relação das histórias de um filme com a do outro (na verdade nem mesmo no próprio longa se forma um todo coeso e amarrado).

    Bom, a proposta inicial do filme é que Gru, o vilão que virou heroi, é recrutado pela Liga Anti-Vilões para descobrir quem roubou a fórmula PX41. Pelo menos assumiram que foram incompetentes na criação de um anti-heroi e pegaram a easy road agora, né. A partir disso, o roteiro conjunto de frases em forma de script tenta criar algum mistério em torno da identidade do culpado. Pelo menos eu posso dizer que ri nessa parte do filme! Tá, involuntariamente, mas conta como riso, né?

    Em meio à isso, também há a tentativa de construir algum relacionamento entre Gru e sua parceira, Lucy Wilde. Tão sem sal quanto forçada. E enquanto isso, claro, temos os minions que, se decididamente salvavam a película original da catástrofe por trazer algum refresco de humor, agora se tornam apenas um prato requentado. Com muito mais tempo na tela, a sensação de déjà vu é incessante. Um verdadeiro arremedo de tudo que a comédia pastelão já fez pelo riso fácil, porém agora fazendo uso de carinhas amarelas fofas e loucas para serem vendidas nas lojas de brinquedos.

   Na verdade, o filme todo parece partir desse princípio. E também do de tentar fazer graça com tudo. Uma coisa meio "vamos imaginar várias cenas engraçadinhas, amarrar, colocar um fiapo de contexto e, pronto, olhem os milhões vindo". Muito que bem. Isso só mostra como está grave a situação das animações americanas - num ano em que a poderosa Pixar ficou sem indicados na categoria de animação do Oscar -.

   Mas vamos terminar este texto antes que minha pressão suba. Mas fiquem aqui com uma dica: querem assistir a algo muito fofo, muito lindo, muito encantador, uma animação excelente, daquelas infantis sem nos fazer de estúpidos? Vejam "Ernest e Célestine". Muitíssimo melhor e incrivelmente maravilhosa. 

Nota 3/10